domingo, 9 de setembro de 2012

Os que falam calados

Se apenas me cabe o medo,
Já não tenho meios.
Se desço fundo em teus próprios receios
Já não tenho forças,
Já não tenho desejos.

Me viro e caio,
Nesse peito fraco.
Me calo, pálido,
Num sorriso falho.

Me faço um,
Quando há mais três.
Eu tomo um rumo,
Sem ter minha vez.

Eu quero o não
Quando só digo sim.
Eu nasci no meio,
Empurrado em um fim.

Em algum motivo raso
Acho minha saída.
Em algum pretexto gasto,
Me ausento dessas alternativas.

Me recai o peso do ferro oxidado
Da escolha bruta,
Que escoa pela carne fria,
Na quente labuta.

Talha o rosto,
Atravessa o corpo,
Por fim desaba crua
As dobras da larga culpa.

Não seria escárnio de si
Estar em silêncio?
Não seria inconcebível
Permanecer sempre em movimento?

sábado, 8 de setembro de 2012

Meio Corpo


    Andava a pequenos passos. Gélida era a noite, ainda não havia claridade.
    Andava. Pernoitando errante nas ruas, desabitadas,ermas, distantes; seguindo os seus sons, incertos; rompendo os brados em ecos ressoantes, reverberados dos amparos e das casualidades perdidas. Mirava o céu cego, era fácil viver.
    O passo ainda torto, a voz já amassada, o rosto partido, a visão mais conturbada. Eu podia sentir o aroma do passado. Apanhando a vergonha pelas mãos, pobres de toques, o calor era uma miragem ingrata.
   Alguns sons emitidos, algumas ideias reviradas; ainda frio. À frente a indiferença, o que se sabe não saber, o fim velado; atrás o desprazer, o desvalor, o remorso.
   Gostava daquela canção. Meu peito dói. Vejo as notas e seu canto por cima dos ouvidos, já débeis, numa melodia familiar, num tom meu, no que era meu. O gosto da reprovação agora enchia.
   Mais um pouco de mais alguns minutos calavam as poucas expectativas, a prorrogação de mais injúrias. A mente desligara-se. Restava o corpo, oco e bruto, irregular, preso ao descompasso.
   Passos em busca de falsos rumos. Não há ar mais pesado, gosto mais acre, paisagem mais finada do que a desilusão.
    A confiança morta, o amor exaurido, os dias inertes. Tropeço. O sangue mostra o desapego que se cria. O futuro é breve, sem obstinações e promessas.
    Assim como a noite, a água toca a pele de modo suave e frio. Envolve as mágoas, cala as dores. Saltam, agora, as memórias. Os rostos ainda vermelhos pelo toque do sol, os abraços dados, os beijos trocados.
   O negror aproxima-se atroz, os anseios desaparecem desafinados, o grito se cala, a carne contrai e pulsa numa teimosia, num desespero irracional por manter-se. Da convulsão da voz, do pânico dos nervos, nasce a partida, a deixa. Nasce o fim.