Andava a pequenos
passos. Gélida era a noite, ainda não havia claridade.
Andava. Pernoitando
errante nas ruas, desabitadas,ermas, distantes; seguindo os seus
sons, incertos; rompendo os brados em ecos ressoantes, reverberados
dos amparos e das casualidades perdidas. Mirava o céu cego, era
fácil viver.
O passo ainda torto, a
voz já amassada, o rosto partido, a visão mais conturbada. Eu podia
sentir o aroma do passado. Apanhando a vergonha pelas mãos, pobres
de toques, o calor era uma miragem ingrata.
Alguns sons emitidos,
algumas ideias reviradas; ainda frio. À frente a indiferença, o que
se sabe não saber, o fim velado; atrás o desprazer, o desvalor, o
remorso.
Gostava daquela canção.
Meu peito dói. Vejo as notas e seu canto por cima dos ouvidos, já
débeis, numa melodia familiar, num tom meu, no que era meu. O gosto
da reprovação agora enchia.
Mais um pouco de mais
alguns minutos calavam as poucas expectativas, a prorrogação de
mais injúrias. A mente desligara-se. Restava o corpo, oco e bruto,
irregular, preso ao descompasso.
Passos em busca de
falsos rumos. Não há ar mais pesado, gosto mais acre,
paisagem mais finada do que a desilusão.
A confiança morta, o
amor exaurido, os dias inertes. Tropeço. O sangue mostra o desapego
que se cria. O futuro é breve, sem obstinações e promessas.
Assim como a noite, a
água toca a pele de modo suave e frio. Envolve as mágoas, cala as
dores. Saltam, agora, as memórias. Os rostos ainda vermelhos pelo
toque do sol, os abraços dados, os beijos trocados.
O negror aproxima-se
atroz, os anseios desaparecem desafinados, o grito se cala, a carne
contrai e pulsa numa teimosia, num desespero irracional por
manter-se. Da convulsão da voz, do pânico dos nervos, nasce a
partida, a deixa. Nasce o fim.
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