Eu acordara bruto em um quarto prático,
Vislumbrava seus minutos em meus segundos
A carne impotente, a carne flácida.
Não seria eu. A carne era podre.
Fechara os olhos de pálpebras abertas,
De boca aberta e pernas retorcidas
No pavor erótico das urgências ocasionais.
Me eufemizava aos poucos.
Irrefreavelmente eu partira;
Caía na condensação de meus desejos
Ou na torpe ilusão mal-fadada.
Era inútil. Eu era inútil.
Exibia-me nas minhas meninices gratuitamente
De corpo solto e monossílabo,
Numa peça gestual de ápice incólume.
Retornava a minha desolação, tão original.
Surpreendia-me a sensação tão vil,
Colateralmente tão devastadora
Que os retalhos da subconsciência me proporcionavam.
Naturalmente eu envelhecera.
Talvez depressa e pior.
Os anos, as pessoas, meu nome, eu
Havíamos todos nos tornado síntese,
Matéria pobre.
Me desfizera do gozo.
Estava atônito, suspenso por um corpo famélico.
Mas sem a fome física, e sim a de dentro,
A que corrói a alma.
Constatei.
Havia sido invadido pelo vazio,
Aquele pernicioso e envulto,
O que se esconde no seio dos intuitos.
Eu me vira, tentara me expelir,
Me projetar; cedera.
Na queda mais consistente, mais real.
Já não havia mais tempo que comportasse,
Havia apenas um quarto, e nele, eu.
Do Ermo
quarta-feira, 20 de março de 2013
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Interlúdio
Hoje comecei um erro
Ergui alguma esperança
Do rastro, da ânsia que se prolifera em mim.
Calei alguns dias, contei algumas histórias
E boa parte de mim, ainda que eu espere,
Vai embora.
O que fica não acaba
Não morre, definha.
Vive da eterna agonia
Recai num resto de tarde,
Num resto de homem.
Em um tempo desfeito
Vivo em uma lânguida palavra
Descoordenado em um sentido
Arrematado por um momento, perdido.
Em páginas secas, como essa,
Onde um sonho se perde entre os rabiscos
Meus olhos se perderão
Como na borra do café
Que, por erro, eu comecei.
Ergui alguma esperança
Do rastro, da ânsia que se prolifera em mim.
Calei alguns dias, contei algumas histórias
E boa parte de mim, ainda que eu espere,
Vai embora.
O que fica não acaba
Não morre, definha.
Vive da eterna agonia
Recai num resto de tarde,
Num resto de homem.
Em um tempo desfeito
Vivo em uma lânguida palavra
Descoordenado em um sentido
Arrematado por um momento, perdido.
Em páginas secas, como essa,
Onde um sonho se perde entre os rabiscos
Meus olhos se perderão
Como na borra do café
Que, por erro, eu comecei.
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
Quem Sabe
Quem sabe quanto do seu tempo me resta?
Quem sabe quanto do seu peito me falta?
Seus olhos caem, minha voz aguarda.
Ele fica, mesmo que eu saia.
Ele volta, mesmo que eu parta.
Ele me prende, mesmo que eu saiba.
Meu coração se faz em outro.
Em outros braços, em outros risos,
Em outros beijos, em outros carinhos.
Me perco em mais voltas,
Em mais outras demoras,
Me lanço as velhas memórias.
Sem sair, sem existir.
Em um momento,
De âmago dilacerado,
Eu nos mato, nos acabo.
Partem, então, algumas;
Acabam muitas,
Nascem outras.
Quem sabe quanto do seu peito me falta?
Seus olhos caem, minha voz aguarda.
Ele fica, mesmo que eu saia.
Ele volta, mesmo que eu parta.
Ele me prende, mesmo que eu saiba.
Meu coração se faz em outro.
Em outros braços, em outros risos,
Em outros beijos, em outros carinhos.
Me perco em mais voltas,
Em mais outras demoras,
Me lanço as velhas memórias.
Sem sair, sem existir.
Em um momento,
De âmago dilacerado,
Eu nos mato, nos acabo.
Partem, então, algumas;
Acabam muitas,
Nascem outras.
sábado, 10 de novembro de 2012
Um rio em mim
Minha nascente não se conhece
Minha origem se confunde
Meu curso se faz lento,
Minha inércia em um açude.
Em meus sulcos afundam as lembranças, as dores,
As extensões da minha voz,
Vastas, imanes.
Eis meu leito.
Me atravesso pelos meus traços,
Me perco em minhas quedas,
Caio nas minhas profundezas,
Me agarro nas minhas margens.
Da urgência, me faço em corredeiras.
Da solidão, um córrego.
Da indecisão, há intermitência.
Me espalho, estilhaço e viro outros
Sigo e caio em uma afluência.
Em meus princípios, não há fim.
Pelos estuários dos dias, transito,
Me filtro.
Me findo no deságue do mundo,
Na foz das palavras,
Onde sou tudo.
Assim me perpetuo, em águas.
Cursando a vida,
Nutrindo a existência,
Cortando a eternidade.
Minha origem se confunde
Meu curso se faz lento,
Minha inércia em um açude.
Em meus sulcos afundam as lembranças, as dores,
As extensões da minha voz,
Vastas, imanes.
Eis meu leito.
Me atravesso pelos meus traços,
Me perco em minhas quedas,
Caio nas minhas profundezas,
Me agarro nas minhas margens.
Da urgência, me faço em corredeiras.
Da solidão, um córrego.
Da indecisão, há intermitência.
Me espalho, estilhaço e viro outros
Sigo e caio em uma afluência.
Em meus princípios, não há fim.
Pelos estuários dos dias, transito,
Me filtro.
Me findo no deságue do mundo,
Na foz das palavras,
Onde sou tudo.
Assim me perpetuo, em águas.
Cursando a vida,
Nutrindo a existência,
Cortando a eternidade.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Um Certo Moço.
Naquela casa mora um certo moço
Que não diz nada,
Não se sabe o nome.
Esse certo moço,
Que não é menino nem homem,
Anda sem precisão.
A noite volta, sem sombra.
Traz consigo a sua assinatura,
A solidão de seus pensamentos.
Naquele moço
Pulsa um certo coração
Que de tão rugoso já não bate por alguém.
Aquele certo moço
Esquece-se de se esquecer
De umas certas outras vidas.
O moço já não aparece mais.
Talvez, de certa maneira,
Tenha ido viver mais errado.
Que não diz nada,
Não se sabe o nome.
Esse certo moço,
Que não é menino nem homem,
Anda sem precisão.
A noite volta, sem sombra.
Traz consigo a sua assinatura,
A solidão de seus pensamentos.
Naquele moço
Pulsa um certo coração
Que de tão rugoso já não bate por alguém.
Aquele certo moço
Esquece-se de se esquecer
De umas certas outras vidas.
O moço já não aparece mais.
Talvez, de certa maneira,
Tenha ido viver mais errado.
sábado, 6 de outubro de 2012
Una Dama Vieja
Te ibas bailando por las calles,
Te ibas arrestando mi pecho.
Me callabas en sonrisas,
Me enamorabas por el tacto.
Te ibas tirando la tibieza,
Te ibas saltando en mi miradas.
Emergías en mi sueños más fondos,
Vivias en mi pesadillas más muertas.
Te ibas haciendo sus caminos,
Te ibas recurriendolos sujetando mis dedos.
Así yo perpetuava nuestros días,
Acostado en tu piel dorada.
Pero el calor del tiempo
Se ha huido de tus manos lisas.
Te ibas llorando como la lluvia en Diciembre,
Te ibas cayendo en tus pasos tan despacios.
Te ibas olvidando de los rostros amigos,
Te ibas alenjándose de la vida.
Me quedo como un recuerdo
Y tú te vas como el viento.
Por tus ojos estoy cubierto de humo;
Eclipsado, borrado.
Te ibas quedando tan débil como vidrio,
Te ibas partindo quieta.
Me iba mirando tu cuerpo, incrédulo;
Me iba sentindo tu frío, terrible.
Tirado en la vida solo otra vez,
Entro ahora en la muerte
Te ibas arrestando mi pecho.
Me callabas en sonrisas,
Me enamorabas por el tacto.
Te ibas tirando la tibieza,
Te ibas saltando en mi miradas.
Emergías en mi sueños más fondos,
Vivias en mi pesadillas más muertas.
Te ibas haciendo sus caminos,
Te ibas recurriendolos sujetando mis dedos.
Así yo perpetuava nuestros días,
Acostado en tu piel dorada.
Pero el calor del tiempo
Se ha huido de tus manos lisas.
Te ibas llorando como la lluvia en Diciembre,
Te ibas cayendo en tus pasos tan despacios.
Te ibas olvidando de los rostros amigos,
Te ibas alenjándose de la vida.
Me quedo como un recuerdo
Y tú te vas como el viento.
Por tus ojos estoy cubierto de humo;
Eclipsado, borrado.
Te ibas quedando tan débil como vidrio,
Te ibas partindo quieta.
Me iba mirando tu cuerpo, incrédulo;
Me iba sentindo tu frío, terrible.
Tirado en la vida solo otra vez,
Entro ahora en la muerte
domingo, 9 de setembro de 2012
Os que falam calados
Se apenas me cabe o medo,
Já não tenho meios.
Se desço fundo em teus próprios receios
Já não tenho forças,
Já não tenho desejos.
Me viro e caio,
Nesse peito fraco.
Me calo, pálido,
Num sorriso falho.
Me faço um,
Quando há mais três.
Eu tomo um rumo,
Sem ter minha vez.
Eu quero o não
Quando só digo sim.
Eu nasci no meio,
Empurrado em um fim.
Em algum motivo raso
Acho minha saída.
Em algum pretexto gasto,
Me ausento dessas alternativas.
Me recai o peso do ferro oxidado
Da escolha bruta,
Que escoa pela carne fria,
Na quente labuta.
Talha o rosto,
Atravessa o corpo,
Por fim desaba crua
As dobras da larga culpa.
Não seria escárnio de si
Estar em silêncio?
Não seria inconcebível
Permanecer sempre em movimento?
Já não tenho meios.
Se desço fundo em teus próprios receios
Já não tenho forças,
Já não tenho desejos.
Me viro e caio,
Nesse peito fraco.
Me calo, pálido,
Num sorriso falho.
Me faço um,
Quando há mais três.
Eu tomo um rumo,
Sem ter minha vez.
Eu quero o não
Quando só digo sim.
Eu nasci no meio,
Empurrado em um fim.
Em algum motivo raso
Acho minha saída.
Em algum pretexto gasto,
Me ausento dessas alternativas.
Me recai o peso do ferro oxidado
Da escolha bruta,
Que escoa pela carne fria,
Na quente labuta.
Talha o rosto,
Atravessa o corpo,
Por fim desaba crua
As dobras da larga culpa.
Não seria escárnio de si
Estar em silêncio?
Não seria inconcebível
Permanecer sempre em movimento?
Assinar:
Comentários (Atom)